E ali parado em um corredor branco morte, olhando pintas de
sujeira espalhadas na imensidão pura da parede, passou a sentir como aquelas
sujeiras. Pensava em uma metáfora escrota onde as manchas nojentas eram como
ele: perdido em um mundo puro de caráter branco.
Cuspiu.
Era preciso cuspir para simbolizar a excreção desses
pensamentos medíocres. Patético. Como um
poeta pode ter-se em tão baixa estima a ponto de criar metáforas infantis em um
corredor desalmado? Medíocre, amador. E era.
- Nunca vi alguém se perder em um corredor. – Ecoou uma voz
fina.
Observou no canto dos olhos uma silhueta a seis portas de
si, mas continuou a olhar as manchas como se fossem mais interessantes. Antes
que o silêncio se tornasse uma fina grosseria, se pôs a falar:
- Dos males o menor. Eu poderia me perder nas ruas.
No segundo seguinte se ouve um eco assustador, que parecia
uma risada ou um barulho estridente qualquer, mas mesmo que houvesse duvida na origem do som, o sarcasmo presente era incontestável. A silhueta movimentou e parou como se
recuperando de uma profunda crise de riso.
- É, querido amigo, como um rato de rua. Perder-se por elas
é como se perder nesse corredor.
Ouve-se um bufar. O poeta medíocre pareceu ofendido.
- Perco-me no mar, já que nunca fui de nadar. Satisfeita?
Não há riso depois de sua declaração, percebe o poeta. Nem há movimento. Apenas um silêncio de quem
espera no último segundo para que comece o primeiro ato.
- Se o problema é se perder, por que não se perder em mim?
E então a volta do
sarcasmo estridente ou riso estridente, que seja... O que importava era que o sarcasmo do fantasma da
silhueta tinha razão.
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