quinta-feira, 26 de julho de 2012

Não há título

Vi cada parte de mim desintegrar, vendo minha pele desgrudar do meu corpo imóvel. Vi essas células flutuantes, curiosamente, se transformarem em palavras. De primeira eram apenas vultos de uma vista míope, mas acabaram se transformando em palavras simples e inquietas. Vi essas palavras, em desordem, percorrerem todo o aposento onde meu corpo se encontrava paralisado de temor. Pareciam estar procurando algo. Foi quando encontraram um papel ao chão, largado e sem utilidade, como de costume, havia quase sempre papéis com textos desperdiçados, uns sem começo, outros sem fim e alguns sem começo nem fim. Após concluir o pensamento, percebi que as palavras se espalhavam com vibração, enquanto outras se jogavam em direção ao papel para grudar de forma que nunca mais saíssem. Após o ponto final se jogar brutalmente no limitado universo branco no chão, acordei. Talvez eu devesse parar de beber antes de dormir.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Colocando sentimentos na mesa (Do um ao infinito).

1. Colocando ansiedades na mesa : Fim. Pergunto-me quando será o fim. Penso ter um encantamento profundo por tudo que engloba esta palavra. Temo que seja um esvaziamento d’alma, até que apenas tristeza e arrependimento componham o ser. Torço para que seja um recomeço inquieto e de luta. Choro por nunca aproveitar de fato o começo do fim de todas as coisas. Ou pensando bem... Pergunto-me se a caso tenho um encantamento profundo por tudo que engloba esta palavra, penso que é um recomeço inquieto e guerreiro, torço para ser um esvaziamento d’alma, até que apenas tristeza e arrependimento componha o ser, temo nunca chorar e aproveitar o começo do fim de todas as coisas e enfim choro quando é o fim.

2. Colocando a verdade na mesa: 
Nunca pedi por isso. Sobre parar uma vida curta que já consome e corrói todo um ser, e na paciência de um índio a fazer seu artesanato, escrever.  Detalhar, sonhar. Sonhar pra que? Não pedi esse dom. Só tenho e se tenho, tenho que dizer que nem obtenho realmente. Minha mente não me obedece mais.  O que impressiona sai de mim e não vem de mim. Minha participação se limita em usar as mãos na ínfima habilidade: Pegar o lápis, mexer. Minhas mãos me obedecem. O resto... No resto não há nada meu, nenhuma vírgula me pertence, pois eu pertenço a minha mente e não ela a mim.  

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Diga-me quem é.


É gente de qual parte?
Parte de qual bolo?
Bolo de qual sabor?
Sabor de qual beijo?
Beijo de qual intenção?
Intenção de qual propósito?
Propósito de qual vida?
Vida de qual valor?
Valor de qual produto?
Produto de qual sistema?
Sistema de qual corpo?
Corpo de qual ser?
Ser de quem?
Quem de qual sujeito?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mandado para/por mim


De começo nada temo, pois o quebra cabeça de mim mesmo vai a cada momento se encaixando. Há alguém que vem e o pouco que vem traz camadas de mim. Cada aparição me completa.  Aparece, então, uma duvida. Duvida tal que é a primeira, primeira de muitas: Quem quebra a cabeça? Quem me recompõe? OH! Então você menina. Quem vem trazer minhas peças, brincando de montar. Curioso ver essas mãos finas, tão astutas, a encaixar tão certo, a trazer-me vida. Mas vem a mim outra questão: O que fará logo após terminar? Terá tanto gosto de montar e desmontar, menina? Ou cansará e me abandonará? Pois agora percebo que temo. Temo ficar sem suas mãos, hábeis mãos, pois sem elas nada sou. De certo minhas peças não poderão vir sozinhas e será difícil encontrar quem possa ser tão perfeita 'quebradora' de cabeça quanto você. Então imploro que fique, mesmo que faça de mim um brinquedo qualquer e que me dê para morar uma caixa de papelão, largado em companhia de seus outros brinquedos esquecidos. Apenas não me deixe.

Exteriorize! O que?


Ah.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

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Encontrei Anne Rice. Suas palavras estão me esperando faz tempo. Minha relação com essa escritora é tão tensa e certa que os nomes de seus livros me perseguem, então não resisti. Comprei seu livro por 3 reais, quase uma economia de 90% e creio, sendo eu uma admiradora do mítico, que o meu contato com essa escritora fora predestinado. Então lá vamos: A hora da bruxa.

Rato de corredor



E ali parado em um corredor branco morte, olhando pintas de sujeira espalhadas na imensidão pura da parede, passou a sentir como aquelas sujeiras. Pensava em uma metáfora escrota onde as manchas nojentas eram como ele: perdido em um mundo puro de caráter branco.
Cuspiu.
Era preciso cuspir para simbolizar a excreção desses pensamentos medíocres.  Patético. Como um poeta pode ter-se em tão baixa estima a ponto de criar metáforas infantis em um corredor desalmado? Medíocre, amador. E era.
- Nunca vi alguém se perder em um corredor. – Ecoou uma voz fina.
Observou no canto dos olhos uma silhueta a seis portas de si, mas continuou a olhar as manchas como se fossem mais interessantes. Antes que o silêncio se tornasse uma fina grosseria, se pôs a falar:
- Dos males o menor. Eu poderia me perder nas ruas.
No segundo seguinte se ouve um eco assustador, que parecia uma risada ou um barulho estridente qualquer, mas mesmo que houvesse duvida na origem do som, o sarcasmo presente era incontestável.  A silhueta movimentou e parou como se recuperando de uma profunda crise de riso.
- É, querido amigo, como um rato de rua. Perder-se por elas é como se perder nesse corredor.
Ouve-se um bufar. O poeta medíocre pareceu ofendido.
- Perco-me no mar, já que nunca fui de nadar. Satisfeita?
Não há riso depois de sua declaração, percebe o poeta. Nem há movimento. Apenas um silêncio de quem espera no último segundo para que comece o primeiro ato.
- Se o problema é se perder, por que não se perder em mim?
 E então a volta do sarcasmo estridente ou riso estridente, que seja...  O que importava era que o sarcasmo do fantasma da silhueta tinha razão.